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O quarto período da obra de Piaget e o desenvolvimento moral

Felipe Q. Siqueira

Segundo Piaget (1981/1985, 1983/1986), a criança pequena manifesta uma indiferenciação entre o real, o possível e o necessário. No decorrer do desenvolvimento, entretanto, ocorre a abertura para novos possíveis. A criança, então, desprende-se das pseudonecessidades e passa a imaginar variações possíveis do estado das coisas. Assim, as diferenciações possibilitadas por essa abertura dão lugar a novas integrações, as quais estão relacionadas com o necessário. Vale salientar que o possível e o necessário não são observáveis nos objetos, ou seja, eles não se apresentam como estados isolados e definitivos.

A evolução do possível e do necessário está diretamente ligada à lógica – não no sentido de uma lógica modal, mas em uma relação com a evolução da noção do real. Isso significa que o desenvolvimento do possível e do necessário também possui uma ligação com o desenvolvimento moral. Tal afirmação está de acordo com a ideia de Piaget (1932/1994) de que há uma relação entre o desenvolvimento moral e o cognitivo.

Para observar tal relação, é interessante considerar os instrumentos utilizados em estudos sobre ambos os desenvolvimentos. De acordo com Piaget (1981/1985), no estudo da evolução do possível e do necessário, devem ser utilizados problemas muito simples para que o mecanismo formador das aberturas contínuas sobre novos possíveis possa ser atingido. Em outras palavras, ao mesmo tempo que as crianças de 4–5 anos devem poder fazer provas suficientemente instrutivas, as de 11–12 anos devem poder chegar a um número ilimitado de soluções possíveis. No caso do desenvolvimento moral, os dilemas também devem ser suficientemente claros para que as crianças mais novas possam compreender, além de possibilitar às crianças mais velhas a realização de julgamentos complexos.

Com o intuito de apresentar alguns instrumentos utilizados em estudos sobre o desenvolvimento moral, vale citar inicialmente a pesquisa de Castro, Rava, Hoefelmann, Pieta e Freitas (2011), na qual se investigou a obrigatoriedade da retribuição em uma situação de gratidão. Utilizou-se o seguinte dilema: “Ângelo(a) tinha uma gatinha. Um dia ela desapareceu. Tia Ana, que estava fazendo um bolo, disse: ‘Não tem problema. Eu te ajudo a procurar tua gatinha’. Ângelo(a) e tia Ana ficaram muito tempo procurando. No fim do dia, encontraram a gatinha. Tia Ana teve que jogar a massa do bolo fora e começar tudo de novo”. A partir de tal história, examinou-se se Ângelo(a) deveria ajudar tia Ana a fazer o bolo ou não.

Outra ilustração interessante sobre instrumentos utilizados nesse tipo de pesquisa está presente no estudo de La Taille (1998), no qual se investigou o desenvolvimento da humildade. O primeiro dilema utilizado foi o seguinte: “Rogério foi jogar bola com seus primos no fim de semana e fez três gols. Na segunda feira, logo que chegou da escola, correu para contar aos seus amigos que foi o artilheiro do time”. O segundo dilema usado foi o seguinte: “No mesmo fim de semana, Caio marcou quatro gols num jogo com seus amigos do prédio, mas não contou para ninguém da escola que foi o artilheiro”. A partir de tais histórias, examinou-se qual dos dois meninos teria agido melhor: Rogério ou Caio. Percebe-se, então, que os instrumentos utilizados em ambos os estudos permitiram a compreensão do problema por parte das crianças mais novas, além de possibilitarem um julgamento complexo por parte das mais velhas.

Outra relação entre a evolução dos possíveis e o desenvolvimento moral reside na relação entre juízo moral e ação. Segundo Piaget (1981/1985), a atualização de uma ação ou ideia pressupõe que antes elas foram tornadas possíveis. Isso significa que, para que alguém execute determinada ação moral, é imprescindível que antes ela tenha sido considerada em termos do que é possível ou não.

Outras referências:

CASTRO, F. M. P., RAVA, P. G. S., HOEFELMANN, T. B., PIETA, M. A. M., & FREITAS, L. B. de L. (2011). Deve-se retribuir? Gratidão e dívida simbólica na infância. Estudos de Psicologia (Natal), 16(1), 75–82. doi:10.1590/S1413-294X2011000100010.
FREITAS, L. B. de L., O’BRIEN, M., NELSON, J. A., & MARCOVITCH, S. (2012). A compreensão da gratidão e teoria da mente em crianças de 5 anos. Psicologia: Reflexão e Crítica, 25(2), 330–338. doi:10.1590/S0102-79722012000200015.
FREITAS, L. B. de L., SILVEIRA, P. G., & PIETA, M. A. M. (2009). Um estudo sobre o desenvolvimento da gratidão na infância. Interamerican Journal of Psychology, 43(1), 49–56.
PIAGET, J. (1994). O juízo moral na criança. São Paulo: Grupo Editorial Summus. (Originalmente publicado em 1932).
RAVA, P. G. S., & FREITAS, L. B. L. (in press). Gratidão e sentimento de obrigatoriedade na infância. Psico-USF, 18(3).
LA TAILLE, Y.; MICELLI, A.; DOMINGUES, C., KRAVOSAC, D. B.; JAMRA, F. A.; FIORINI, F. P.; BRONSTEIN, M., et al. (1998). As virtudes morais segundo as crianças (Relatório Científico FAPESP não-publicado/1998). São Paulo: Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

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